Talvez o desfecho fosse inevitável. Quando Julian de Guzman assumiu o cargo de chefe de esportes do Red Bull New York, havia um nome que surgia naturalmente como sua primeira grande escolha para a comissão técnica: Michael Bradley. A decisão não veio do acaso, mas de anos de convivência, observação direta e respeito profissional construído dentro e fora de campo.
De Guzman e Bradley se enfrentaram diversas vezes como jogadores, travando duelos no meio-campo tanto na MLS quanto em jogos internacionais. O canadense também acompanhou de perto o impacto do ex-capitão da seleção dos Estados Unidos na história recente do Toronto FC, clube de sua cidade natal. Bradley foi um dos pilares da transformação do time, que deixou de ser motivo de chacota para se tornar presença constante na disputa por títulos.
Experiência recente pesou na escolha
Mais do que memória ou reputação, o que consolidou a escolha foi o trabalho recente de Bradley no próprio universo do Red Bull New York. Como treinador do RBNY II, o segundo time do clube, o ex-volante conduziu a equipe ao título da MLS NEXT Pro, em novembro do ano passado.
Para De Guzman, essa passagem foi determinante. Ele acompanhou de perto o dia a dia de Bradley no centro de treinamento e teve acesso a algo que não aparece em estatísticas nem em coletivas: rotina, disciplina e mentalidade.
Postura que molda cultura
Durante a coletiva de apresentação de Bradley, realizada na tarde de segunda-feira, De Guzman foi direto ao explicar o que mais lhe chamou atenção ao longo desse período.
Segundo o dirigente, Bradley era constantemente um dos primeiros a chegar ao escritório e o último a sair. Não se limitava a análises táticas, vídeos ou planejamento de treinos. Ele também fazia questão de treinar fisicamente, mantendo hábitos de atleta mesmo já consolidado como treinador.
“Você observa e pensa: ‘Esse cara é de verdade. Ele leva o trabalho a sério’”, relatou De Guzman.
O relato ganhou contornos ainda mais claros quando o dirigente descreveu cenas do cotidiano no CT.
“Eu costumava sair do escritório por volta das sete da noite e via o Michael correndo de uma área à outra do campo. No começo, achei que fosse um jogador do elenco. Depois você entende que é alguém que está ali para vencer, todos os dias.”
Liderança pelo exemplo
No futebol, discurso não sustenta projeto. O que cria cultura é comportamento repetido. E é justamente nesse ponto que Bradley se diferencia. Para De Guzman, a postura do treinador gera impacto direto em todos os níveis do clube.
“Jogadores e funcionários se inspiram nisso. Esse tipo de atitude constrói a cultura do clube”, destacou. “É esse tipo de pessoa que você quer diariamente dentro do seu prédio.”
A frase resume bem o momento do Red Bull New York. O clube busca consistência, identidade clara e competitividade real na MLS. Nada de soluções mágicas ou apostas vazias. A ideia é retomar princípios básicos: trabalho, cobrança e comprometimento total.
Conexão com o DNA do clube
A escolha de Bradley também conversa diretamente com o DNA do Red Bull no futebol: intensidade, pressão alta, mentalidade vencedora e preparação física rigorosa. Como jogador, Bradley construiu a carreira em cima desses valores. Como treinador, mantém o mesmo padrão.
A passagem vitoriosa pela MLS NEXT Pro mostrou que ele sabe transmitir esses conceitos, adaptar linguagem e formar grupos competitivos — algo essencial em um ambiente que valoriza desenvolvimento sem abrir mão de resultado.
Um passo simbólico para De Guzman
Para Julian de Guzman, a contratação tem peso simbólico. É sua primeira grande decisão à frente do departamento esportivo do clube. Optar por alguém que ele conhece, respeita e confia não é comodismo, mas convicção.
Em um futebol cada vez mais dominado por discursos prontos, a aposta no óbvio bem-feito soa quase revolucionária. Bradley não chega como promessa, nem como nome midiático. Chega como trabalhador do jogo.
Red Bull New York mira reconstrução sólida
A mensagem passada pelo clube é clara: o Red Bull New York quer voltar a competir em alto nível, mas sem pular etapas. Cultura vem antes de troféu. Rotina antes de discurso. E liderança se constrói no exemplo diário.
Se isso vai render títulos, o tempo dirá. Mas uma coisa já está definida: a escolha de Michael Bradley não foi impulso. Foi leitura de futebol, dessas que se fazem com olho clínico, memória e respeito ao que sempre funcionou no esporte.
