O Território MLS esteve em Atlanta e acompanhou de perto toda a preparação da seleção dos Estados Unidos durante a Data FIFA: treinos, coletivas e os dois amistosos no Mercedes-Benz Stadium.
Mais do que os resultados, a semana serviu para entender o que é enfrentar seleções do mais alto nível. Mesmo com as derrotas, existem coisas boas e importantes para tirar.
Dia 1 — Primeiro contato: entre leveza e sinais importantes
A cobertura começou no Children’s Healthcare of Atlanta Training Ground, onde os Estados Unidos fizeram o primeiro treino aberto e as coletivas iniciais.
Logo de cara, um nome chamou atenção: Antonee Robinson. De volta à seleção, confirmou que estava 100% disponível, algo importante, principalmente olhando o que viria nos jogos.
Ao lado dele, Folarin Balogun participou de forma mais discreta, mas falou sobre o grande momento que vive no Monaco, fase que, inclusive, se manteve após a Data FIFA.
Pouco depois, vieram Christian Pulisic e Weston McKennie, e aí apareceu um dos temas da semana: pressão.
Pulisic foi direto:
“A pressão está lá, eu sinto isso, mas não é nada que eu não consiga lidar.”
A coletiva foi curta, leve, até com momentos descontraídos, principalmente quando surgiram perguntas sobre as rivalidades de clube, já que Pulisic joga no Milan e McKennie na Juventus.
O treino aberto veio na sequência, mas pouco deu para tirar. Tudo muito leve: bobinho, risadas, clima solto. Normal para esse tipo de atividade. A principal ausência foi Chris Richards, que não participou.
Na sequência, Maurício Pochettino fechou o dia com coletiva e deu o primeiro tom mais forte da semana.
Antes de qualquer pergunta, pediu espaço para homenagear Tata Martino, hoje no Atlanta United. Houve troca de elogios e camisas, num momento bem simbólico.

Mas a resposta mais marcante veio logo depois, quando foi perguntado sobre as chances dos Estados Unidos na Copa de 2026:
“Nós somos os Estados Unidos. Por que não nós?”
Ali, de certa forma, começava a Data FIFA.
Mais tarde, já no Mercedes-Benz Stadium, foi a vez da Bélgica, com suas estrelas: Kevin De Bruyne, Jeremy Doku, Youri Tielemans… O contraste foi imediato.
Treino mais intenso, mais físico, mais focado, mesmo com a imprensa presente. Na hora parece detalhe. Depois, fez todo sentido.
Dia 2 — Bélgica: um jogo que explicou muita coisa
O amistoso contra a Bélgica era o primeiro teste real. E, por um tempo, pareceu que os Estados Unidos estavam prontos.
Pressão alta, intensidade, recuperação rápida da bola. Durante boa parte do primeiro tempo, o time competiu de igual para igual. Era uma versão que já vinha aparecendo, especialmente naquele 5 a 1 contra o Uruguai.
Mas o jogo virou, e virou rápido.
A derrota por 5 a 2 não conta tudo, mas explica bastante.
O contraste de estilos ficou claro. Os Estados Unidos são uma seleção intensa, que pressiona alto. A Bélgica, por outro lado, tem qualidade para suportar essa pressão e sair em velocidade, com pontas muito fortes e meias com passe acima da média, até na defesa.
É uma combinação perigosa. E foi.
Mesmo com Jeremy Doku sendo um problema constante, o primeiro tempo dos Estados Unidos foi competitivo. O problema veio depois.
No segundo tempo, o desgaste apareceu, os espaços aumentaram e a Bélgica encontrou o cenário perfeito. A partir daí, o jogo virou um domínio claro no Mercedes-Benz Stadium.
Antes mesmo da bola rolar, um detalhe já mostrava o nível do ambiente. Indo para a coletiva de Rudi Garcia, vi Kevin De Bruyne passar ao meu lado, em silêncio, completamente focado.
Não teve interação, nem era o momento. Mas é aquele tipo de situação que te lembra exatamente onde você está.
No pós-jogo, as respostas seguiram o que foi visto em campo:
“Os Estados Unidos são melhores do que esse resultado mostra.” — Rudi Garcia
“Não conseguimos manter a intensidade durante todo o jogo.” — Maurício Pochettino
Na zona mista, perguntei ao Ricardo Pepi sobre a importância de enfrentar seleções desse nível antes da Copa:
“Sim, 100%. Esses jogos nos preparam e nos colocam em uma posição melhor para a Copa do Mundo.”
Simples, e totalmente alinhado com o que a semana mostrava.
Entre jogos — Atlanta, esporte e um contraste curioso
No domingo, sem jogo, resolvi viver um pouco da cidade.
Fui ao jogo do Atlanta Braves, e ali já deu pra perceber algo diferente. Ambiente leve, familiar, muitas crianças, um clima bem distante do futebol que estamos acostumados.
Na segunda, o ritmo voltou com treinos e coletivas, mas terminou novamente fora do futebol, dessa vez na NBA, com o Atlanta Hawks.
E foi aí que uma fala da coletiva começou a fazer ainda mais sentido.
João Félix disse:
“Não acredito que eles vivam o futebol aqui. Eles não jogam sob pressão.”
Na hora, soa como provocação. Depois de viver a cidade, dá pra entender melhor. É diferente, e essa diferença aparece dentro de campo também.
Portugal — ideias diferentes, jogo diferente
Na manhã de segunda-feira, voltamos ao CT do Atlanta United para acompanhar a seleção após a derrota para a Bélgica.
O clima já era outro. Ainda existia certo otimismo, mas mais contido.
As novidades foram o retorno de Chris Richards e o corte de Johnny Cardoso, que voltou à Espanha para iniciar recuperação com o Atlético de Madrid.
Mais tarde, foi a vez de Portugal.
Na coletiva, consegui perguntar a Roberto Martínez sobre uma fala recente de Carlo Ancelotti, que disse que a Copa do Mundo se ganha sofrendo menos gols.
A resposta foi direta:
“No futebol, vence quem faz mais gols. Manter o zero ajuda, mas o importante é marcar mais.”
Ali já dava pra perceber uma diferença de visão. Mesmo sendo uma seleção de posse, que constrói por dentro e pode parecer mais controlada, a ideia segue sendo ofensiva.
Jogo contra Portugal — menos intensidade, mais controle
O jogo já estava desenhado para ser diferente. A Bélgica é forte pelos lados e espera o adversário. Portugal gosta da bola, cede menos espaço e controla mais o jogo por dentro.
Com Bruno Fernandes e Vitinha, o ritmo ficou mais cadenciado.
Os Estados Unidos competiram, tiveram momentos, mas, mais uma vez, não sustentaram o nível. O segundo tempo contra Portugal, apesar do placar, foi ainda pior do que o visto contra a Bélgica.
Derrota por 2 a 0 e a mesma sensação do jogo anterior, mas agora com um entendimento mais claro do que precisa ser feito em cenários diferentes.
No pós-jogo, Pochettino foi direto:
“Nós não temos jogadores entre os melhores do mundo como eles. É por isso que precisamos desses jogos.”
Na zona mista, falei com Sebastian Berhalter sobre a parceria com Aidan Morris:
“Ele é meu melhor amigo. Jogar com ele é incrível.”
Simples, mas ajuda a entender muita coisa dentro de campo.
O nível ficou claro
Depois de tudo isso, treinos, coletivas, jogos e zona mista, dá sim para tirar coisas positivas de duas derrotas.
Os Estados Unidos competiram durante boa parte da Data FIFA. Faltou manter a intensidade, houve erros de escalação e, em alguns momentos, faltou talento.
Faltou bastante coisa.
Mas esses eram exatamente os jogos que precisavam acontecer.
Enfrentar seleções da primeira prateleira era necessário para entender o nível real da seleção dos Estados Unidos. E agora isso está claro: é um time que ainda está um degrau abaixo, mas que consegue competir.
Os Estados Unidos pressionam, incomodam e, por momentos, jogam de igual para igual. O problema é sustentar isso por 90 minutos.
Mais do que os resultados, Atlanta mostrou onde a seleção dos Estados Unidos está hoje e o que ainda precisa ajustar antes da Copa do Mundo.